Samba, a gente não perde o prazer de cantar
E fazem de tudo pra silenciar
A batucada dos nossos tantans....
Fundo de Quintal
Estamos em 2013. Juro que evito ao máximo bater na mesma tecla, mas às
vezes isso é impossível. Dentro da realidade em que vivemos, esbarro em
situações que considero extremamente semelhantes e, por não conseguir
fingir que não as vejo, retomo de onde parei.
Definitivamente, um dos melhores livros que já li sobre a história do samba é Desde que o samba é samba,
de Paulo Lins. Que pesquisa maravilhosa e que passeio por nossa
história. Um material como aquele deveria ir para as escolas como
retrato fiel de nossa cultura. Tudo muito rico, os primórdios sofridos e
esperançosos do que hoje é considerado (apesar da discriminação que
ainda sofre) a alma do povo brasileiro. Povo brasileiro que também é
título de outro livro, de Darcy Ribeiro, que deveria ser obrigatório na
escola.
Embora não haja (ou haja) ligação direta aparentemente, minha cabeça não
consegue não ligar os pontos do livro de Paulo Lins com o livro do
escritor togolês Kangni Alem. O professor Kangni Alem escreveu Escravos,
em que retrata um pouco da realidade entre o final do século XVIII e o
início do século XIX, quando algumas das revoltas negras, como a dos
Malês, por exemplo, explodiram no Brasil gerando uma histeria antinegros
pelas colônias. A perturbação da ordem escravista deu origem ao hábito
de enviar os negros “indesejáveis” de volta à África.
Tanto
o livro de Paulo Lins quanto o de Kangni Alem retratam de maneira crua a
situação social dos negros no Brasil, em dois tempos que carecem de
documentação. A miséria pré e pós-escravidão, filha do racismo com ódio
de classes, empurrou os pretos para a favela, e ali nasceu e foi
aperfeiçoado o samba, com gente do Rio de Janeiro e da Bahia. Assim a
favela se tornou a nova senzala. O samba também já cantou isso.
A imagem forte do grupo após ser “controlado” pela polícia me remeteu a
tantas outras do meu imaginário... me lembrou do pôster do filme Carandiru,
com todos os detentos sentados e cabisbaixos no pátio, me lembrou
africanos capturados a esperar a chegada do navio negreiro. Mas o que
mais me intrigou foi que não havia crime nenhum que justificasse a ação
da polícia. Ação essa considerada legítima pelos órgãos da Justiça no
Espírito Santo. Que tristeza observar isso no meu país em pleno século
XXI.
O que resta para nos alegrar é cantar e dançar. Não custa dinheiro, nos
permite sermos reis e rainhas a nossa maneira. O canto e a dança são
nossas poucas ou únicas heranças.
Ao que me parece, os jovens do Espírito Santo foram para o shopping após
um tumulto em um baile funk, usaram o local para se proteger da
confusão. Os outros frequentadores, ao verem aquela quantidade de
pretos, logo imaginaram que se tratava de um arrastão. Triste.
Kangni Alem narrou isso no Brasil-Colônia e na África. Paulo Lins, em
algumas passagens de seu livro, descreveu cenas que em muito lembram
essa perseguição. O samba sobreviveu cantando, nos deus frutos
fascinantes. Mas eu estou cansado de sobreviver, quero viver, viver
livre disso. Não há um gênero musical fruto da música negra que não
tenha cantado essas mazelas que vivemos. Nenhum, do jazz ao funk
carioca. É a nossa forma de mostrar ao mundo a agonia em que vivemos.
Mas, tristemente, encerro com a seguinte pergunta: até quando
sobreviveremos?
Por Emicida (Revista Piauí)